domingo, 31 de maio de 2026

Rosa Immortal

Nos túmulos, sob o império das miasmas,
Há o pranto lúgubre que a treva encerra,
Onde o espectro inerme vaga pela terra
Entre cruzes de pedra e velhos fantasmas...

Jaz a saudade no abismo infinito,
No seio frio de um eterno remorso;
Junto com prece, um breve Pai-Nosso,
Onde o carinho socorre o aflito...

Os mármores guardam a triste dormência,
Do amor sepultado na dor mais obscura,
E da tua voz que o silêncio devora...

Foram enlevos de escassa existência,
Fatais nostalgias na noite escura,
De lembrança que minh'alma inda chora...



quarta-feira, 27 de maio de 2026

Catalepsia

No necrotério, sob a luz de um bico de gás,
O Herr Doktor ausculta o peito em pleno inverno; 
Não há sopro ou pulsar no arcabouço interno, 
E a rigidez da morte o bisturi compraz.

Mas sob a cripta fria, em gume secular, 
A síncope desfaz seu gélido liame: 
O verme interrompido abdica do exame, 
E a consciência acorda em claustro tumular!

Rompe-se o espasmo! O dedo, em súbito arranco, 
Traciona o fio metálico, suspenso... 
E o bronze vibra e ecoa em desespero imenso!

Ressoa o sino! O guarda espreita, lívido e branco, 
Pois sabe que a matéria — em vez de podridão — 
Grita por vida e ar de dentro do caixão!


Durante os séculos XVIII e XIX, o medo de ser enterrado vivo — uma fobia real conhecida como tafofobia — era generalizado na Europa e nas Américas. Esse pânico não era infundado: a medicina da época ainda tinha dificuldades para diagnosticar com precisão o óbito em casos de coma profundo, cólera ou catalepsia (condição em que os sinais vitais ficam quase imperceptíveis).

Para acalmar a população (especialmente as classes mais abastadas, que podiam arcar com esses custos), inventores criaram os chamados "caixões de segurança" (safety coffins).
O modelo que você descreveu, com o caixão em um mausoléu ou cripta familiar, existiu e era uma das variantes. O funcionamento seguia exatamente essa lógica:
O mecanismo: Uma corda era amarrada ao pulso ou à mão do falecido. Ela passava por um pequeno duto nas paredes ou no teto do mausoléu (ou subia até a superfície, no caso de túmulos sob a terra) e era conectada a um sino externo.
A vigilância: Em muitos cemitérios europeus, guardas eram contratados para vigiar os túmulos durante a noite, justamente para ouvir se algum sino tocava.
Outras invenções: Havia patentes ainda mais complexas que incluíam tubos para entrada de ar, chaves para abrir o caixão por dentro, bandeiras que subiam quando o corpo se movia e até lâmpadas internas.



segunda-feira, 25 de maio de 2026

Necropsia Final

Vós, vermes-coveiros que escavrais o luto,
No cárneo mármore dum crânio sepulcral,
Não sondais a larva que no fim conduto,
Fecunda a podridão num beijo espectral?


​O Tempo é o bisturi que a Matéria dobra,
E nós, os fétidos cadáveres que ele talha,
Sem a glória efêmera da ilusória obra,
Para a urna séptica no fim dessa batalha.

​O Cosmos é o cinzel da pútrida idade,
E nós, a carniça que a Química lança;
No hipogeu onde a Morte alcança!

​Vinde, vermes! A Noite é a Eternidade!
Não vedes a alma, gás do vil sepulcro?
Ela é o vômito negro da Fatalidade!



domingo, 17 de maio de 2026

Nossa Consolação

Caminho na penumbra e no abandono,
Na Consolação, sob o mármore frio,
Onde o silêncio escorre num pavio
E a morte dita o seu eterno trono.

A minha vista segue o rastro esguio
Do verme que desperta do seu sono,
A morder a vaidade e o abandono
Da carne que sucumbe ao desvario.

Olho, então, para o alto do jazigo:
A estátua erguida engole o próprio nome
Da elite que a poeira já consome,

E sinto o horror do que trago comigo,
Pois sei que a mente, enfim se cala,
Presa na gélida e eterna marmorala.



domingo, 26 de abril de 2026

O Sono de Mármore

Em gélido sepulcro, jaz, alheia,
A forma branca, em mármore carcomida,
Como se a alma, da carne desprendida,
Vertesse o ocre em cada morta veia.
Seu rosto, lívido, em transe se alheia,
Do lodo infame da humana jornada,
Como uma estrela, em Nix sepultada,
Que em sombras densas se banha e ceia.

​No peito inerte, a cruz que não perdoa
A herança vil da vida, já finada,
E a rosa rubra, que a morte atoa...
Como um escárnio em face já calada,
Diz que a beleza, entre o verme e a garoa,
Na tumba fria, inda é proclamada.



sábado, 18 de abril de 2026

Musa Tumular

 (Para uma imersão completa nestes versos, convido-o a despertar a atmosfera sonora de Nox Arcana clicando no play do vídeo abaixo)

Sob o negrume de uma noite fria,
Era teu rosto, fluindo ao luar;
Eu via em ti as dores d'agonia,
Perante as flores, silentes embalar...

Em negra veste tão esplendorosa,
Fez de teu vulto musa da saudade.
Vieste então, sombria, langorosa
A santa musa, nossa humanidade!

Estavas morta! E o frio que te envolve
Não gela o olhar que o meu destino corta,
Pois teu silêncio a minha alma absorve...

Sombra de gelo que me apaga a febre,
Tu és a musa que o meu sol conforta,
No negro luto que em meu peito fere!



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Gênese em Mármore Brumal

 Oh! Que gélido, que dor atroz funérea...
Onde o luto em triste pranto acorda!
De que éter, nessa lápide cinérea,
Vem a dor, que n'alma hoje aborda!

Sublimações das almas, glória celestial!
Revelam o amor que a cripta ignora;
Gélidas moradas, silentes e sideral,
Dos encantos, do Cristo que a alma adora!

Finda aos céus um acorde antes fugaz,
Em glória astral, vibrante, apaixonada
Níveo Salmo, que o luto não consome!

Clarão angélico, sinfônico que apraz,
Da transcendência, mística e velada,
E do consôlo, sacrário do seu Nome! 










sábado, 30 de agosto de 2025

Virgens Mortas

Na noite fria, onde o luar se dilui ao céu,
Jazem as virgens, pálidas da sinfonia...
Seus olhos, antes luz, agora negrume véu,
E uma tristeza que o esquecimento guia...

Jardim de lírios, que ninguém mais rega,
Testemunha a partida em silêncio atróz...
Mas ao longe um hino que a saudade leva,
De um amor latente, que findou em nós.

Desfaz-se o sonho, em fúnebre quimera,
E um cortejo, sob o manto da penumbra,
Da beleza finda, em sepulcral esfera,

As virgens almas que o céu vislumbra,
Que no adeus esse hino encerra,
É a dor eterna que em mim deslumbra.










terça-feira, 29 de abril de 2025

Suspiros Derradeiros

Quando, enfim, à fria lápide acampar,

Com preces fervorosas e uma oração;

As rosas hão de, qual pranto, adornar,

Os sonhos findos de amor e afeição.


Perante Cristo as almas hão de estar,

Junto aos anjos nos édenos sidéreos,

Quem sabe eles, às almas a consolar,

Salmodiando com cítaras, saltérios...


Deitadas no leito, lágrimas e memórias,

E os sonhos todos, cândidos, inefectos,

Em dolentes modas e etéreas glórias...


Talvez para fenecer, de modo anelante,

Em lánguidos suspiros se findarão;

Que do orvalho, e em lágrima restante...




segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Ecos da Solidão

Esta alma triste, soturna e desolada,
Qual uma flor, dolorosa dos prantos
Descrita em sinfonia, bela, adornada,
Evoca saudades, mistérios, encantos!

Evoca saudades, dos sonhos de amor
Além do oceano, das terras distantes
Evoca os sussurros, quais ecos de dor
Do amor esquecido de almas errantes

Soturna flor, como o lírio da solidão
Esquecida nas brumas da imensidão
Sublime essência, aos poetas inspirar...

Soturna Flor, dos hinos, das sinfonias
Antigo amor, do sonho, das melodias
Plangentes, tumulares na alma ecoar...



domingo, 10 de janeiro de 2021

Tumulo Angel of Grief ou Anjo da Dor



 O túmulo do Anjo da Dor (Angel of Grief) ou do Sofrimento, é uma obra feita pelo escultor estadunidense William Wetmore Story (1819-1895) e que hoje serve como um túmulo de pedra em homenagem ao artista e sua esposa Emelyn Story que morreu em 1894, e que encontra-se no Cemitério Protestante, oficialmente denominado Cimitero acattolico  em Roma. Uma réplica feita em 1906 existe no Mausoléu de Stanford na Universidade de Stanford substituindo um criado em 1901, e destruída no terremoto de São Francisco de 1906.

Este moumento fúnebre, encontra-se no Cemitério Protestante em Roma.

O Anjo da Dor é um dos memoriais mais comoventes e visitados no Cemitério Não-Católico de Roma, localizado à sombra da pirâmide de Caius Cestius no distrito de Testaccio da cidade.

Story resolveu esculpir a estátua como uma forma de lidar com a perda de sua esposa, dizendo: “Ela foi minha estadia, minha alegria, minha ajuda em todas as coisas”. Story também poeta, inspirado pelo amor à sua amada esposa, demonstrou todo seu talento ao criar esta obra tão magnífica, e que inclusive serviu como capa de álbum por algumas bandas de Rock.

Em 2004 a banda Nightwish trouxe na arte do álbum "Once", uma ilustração com essa estátua. Outras três bandas já haviam lançado álbuns com esse mesmo anjo: The Tea Party no álbum “The Edges of Twilight” de 1995, Evanescence no seu EP homônimo de 1998, e a banda Odes of Ecstasy, no álbum “Embossed Dream in Four Acts”, também de 1998.

O anjo da Dor foi a última grande obra do escultor e se tornou o local de descanso do artista um ano depois, quando morreu aos 78 anos.

Usei a imagem deste monumento para estampar a capa do blogue Lírio das Almas, blogue destinado à poema de luto. https://liriodalma.blogspot.com/?m=1



domingo, 26 de agosto de 2018


Ao fechar os meus olhos p’ra sempre,
E estas mãos para sempre parar;
E este corpo na terra em seu ventre,
Quais lembranças de mim vão restar?

Esta vida foi feita com lutas extremas,
Mas com um luto ela vai se encerrar.
Não terei mais os doces poemas,
P’ra minh’alma no além se alegrar...

Tive o amor benfazejo e as delícias,
Mas também meus invernos polares!
Inimigos d’alma e as doces carícias,
D’outros anjos, do céu, d’além mares...

Restará talvez breve lembrança,
Nesta Ode que a alma alcançar...
Talvez seja um alento ou bonança,
Para a alma em que ela tocar...

Só queria uma pedra epitáfio,
Com os versos de amor exaltar!
Deixo, porém para o tempo,
O dia e a hora chegar!


domingo, 21 de maio de 2017

Teu Silêncio

Eis que este amor fenecido, lutuoso,
E com minh’alma soturna tão dolorosa;
Diante desta visão cadavérica, formosa,
Verto ainda amor, póstumo, saudoso...

Em negra veste, sombria e merencória,
Minh’alma contrita verte-se em pranto...
Nesta contemplação de fulgido encanto,
De tanto sentimento nesta dedicatória...

Na serenidade de sombrio paramento,
Ainda caberá tanto deslumbramento
Que todo este amor em palavra tece...

Pois em teu lábio convulsivo, e mudo,
Ainda vejo como que bendizendo tudo,
As sílabas simbólicas de nossa Prece!


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Última Quimera

Nas noutes frias das dolorosas ilusões,
E nestes sonhos de mórbidos letargos;
Verto os poemas nascidos das afeições,
Verto em prantos, tristonhos, amargos.

E nestes sonhos de tristezas tumulares,
Dentre o chorar plangente dos violinos;
Escuto vozes soturnas d’outros lugares,
Como a entoar ao longe os doces hinos.

Neste momento, sinto a tua fragrância,
Do que foi nosso amor, na exuberância,
Essência da paixão, fruto da primavera.

E para relembrar teus últimos encantos,
As rosas murchas, os lírios e amarantos,
Serão recordações nossa última quimera.
 


sábado, 27 de dezembro de 2014

Visões Celestinas


Eis que no céu nevoento, enluarado,
Graciosos vultos por lá povoam!
Céu noturno, nebuloso, paramentado,
Vultos angélicos, por lá revoam...

Com harmonia singela, mas graciosa,
Desce à terra, uma visão inusitada!
Alva como a neve, branca, misteriosa,
Só pode ser divina, celeste, imaculada...

Mas, quem és tu, ó vulto misterioso?
És do Céu, do Cristo, doutra esfera?
Talvez meu anjo, silente e amoroso...

Quem sabe Deus, senão a minha sorte?
A nossa consolação, o ideal das almas,
Talvez a glória, quem sabe a boa morte!



sábado, 8 de novembro de 2014

My Immortal


Alma envolta em sentimento e ternura,
Feito uma santa de um rosto angelical;
Junto com flores sublimes da sepultura,
Em sua dormência, solene e sepulcral...

Nesta lividez de tão cândida alvura,
De frias mãos em mantos sonolentos;
Beleza fenecida de lânguida candura,
Jaz no silêncio de pétreos monumentos...

Contigo esta flor, lacrimosa, tristonha,
Tal como quem serenamente sonha,
Com o gozo celestial, dos anjos, da Paz...

Mas eis que junto ao Cristo marmóreo,
Dentro do recinto plangente, merencório,
Olvidar o nosso amor, esta campa jamais...



quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Menino da Fotografia

Quem és tu, menino tristonho e lacrimoso,
Que como a sombra de outrora nesta visão;
Aflora em meu coração, pueril e doloroso,
Com versos em prantos e uma doce ilusão?

Foram teus soluços, todos os teus prantos,
Nas noites de outrora em taciturno gemido;
Que geraram as flores, os poemas, encantos,
Em um coração dilacerado; soturno, ferido!

Fotografia envelhecida, que n'alma abrigo,
E um sonho dilacerado, sofredor e antigo,
Que escondo no coração silencioso, denso...

Descortina a noite de um céu flóreo, risonho,
No silêncio desta minha dor, e deste sonho,
Para ascender a um esquecido amor imenso....




domingo, 6 de julho de 2014

Lacrimosa Lua

A amplidão da noite, solene esmaeceu,
Por este chão, sagrado e transcendente...
Pois tu’alma, que tristonha adormeceu,
Acolhida foste, ao Cristo eternamente...

Para mim o que era sonho terminou,
E em meu peito o coração esmoreceu!
Como lírio, que o teu corpo enfeitou,
No crepúsculo, a minh’alma feneceu...

Crepúsculo como véu no fim da tarde,
Na envolvência de minh’alma agasalhar,
A Lua é a ante-sombra  que me invade...

Ó lua, tristonha! Que palidez a tua!
Teus prantos em minh’alma se derramam,
Meu consolo, meu amor, Ofélia nua...





sexta-feira, 21 de março de 2014

Lírio da Minha Dor


Lírio da minha desventura, ó lírio!
Sinto minha vida se esvair agora,
No leito que me acolhe por ora,
Envolto em dor e profundo martírio...

Já próximo da minha despedida,
Chega à alma uma doce inspiração;
Do amor nascido em meu coração,
Desta vida, sofredora e combalida...

Nesta palidez augusta, d’aurora,
Resta à minha alma, embora;
Rogar aos céus numa prece divina...

Lírio da minha dor, esmaecido jaz,
Nestas mãos que a Deus compraz,
E que minh’alma, conduz e ilumina... 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Farol das Almas

Certas noutes, brumais, dos plenilúnios,
A lua alva no aconchego dos negros véus,
Visão medonha, sagrada e dos eflúvios,
É a visão, sacrossanta dos ermos céus...

Há um mistério, que encanta e arrebata,
Que no ardor dessa santa contemplação,
Faz da lua um mistério que Deus retrata,
As santas almas, que jazem hoje ao chão...

Exuberante mas triste, paramentada,
É esta leiva que um dia acolherá,
Todas as almas da terra, iluminada...

A luz da lua atraca nos tristes portos,
Como farol, das almas enclausuradas,
Sagrada luz, angélica dos mortos...